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quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

A noite ainda é uma criança





Inês adorava fazer programas só com as amigas, e aquele jantar tinha sido a cereja no topo do bolo.


Uma sexta feira, de uma semana extremamente difícil.

Quando entrou no carro de Marta, sentou-se no banco de trás, beijou Alice e acendeu um cigarro. No radio estava a passar o "rolling in the deep" da Adele. "Mete mais Alto!!", gritou, e foi o momento Karaoke do dia.


A música ainda não tinha terminado e Marta diminui abruptamente o volume do rádio. "Sabes quem é que hoje também é capaz de ir ao Plateau?! O teu amigo Diogo!".


Naquele momento, Inês sentiu um aperto no estômago...um formigueiro na coluna...uma dormência nas pernas...


"Então?! Mas combinaram alguma coisa?"



"Não propriamente, mas parece que ele tinha coisas combinadas com uns amigos e está a pensar acabar a noite no Plateau...quem é amiga, diz lá?!"


"Caramba Marta! Já me podias ter dito isso mais cedo! Tinha ido a casa mudar de roupa, não achas?"


"Ainda tinhas uma síncope durante a tarde...ahahahahahaha!!"


Diogo era uma paixão antiga de Inês. Conheceram-se há cerca de 6 anos no local de trabalho. Envolveram-se em todos os sentidos, mas as coisas não acabaram bem. Diogo era comprometido e acabou a relação com Inês, na altura em que foi viver com a namorada.


Inês apaixonou-se verdadeiramente por ele e viveram uma relação intensa. As sequelas ainda eram visíveis após tantos anos.


Actualmente Diogo está a trabalhar na mesma empresa que Marta. São amigos inseparáveis e nas conversas de ambas, o nome dele surge com frequência...o que complica o processo de reabilitação.


Inês fez questão de manter contacto com Diogo durante todo este tempo. Podia ter escolhido uma forma mais fácil de superar a situação, deixando simplesmente de lhe falar...mas o Diogo valia a pena...e apesar de não se verem durante anos, mantiveram um contacto regular através de mail e telefone...e a amizade estava consolidada...



Inês ficou surpreendida com a sua reacção perante a hipótese de estar fisicamente com ele nessa noite. Tornou-se agitada, ansiosa e começavam-lhe a surgir imagens de uma noite bem passada, com um final feliz, num hotel qualquer da cidade!


"Larga o telemóvel!" grita Marta, cortando o pensamento da amiga.



"Deixa-a estar com o telemóvel! Que chata! Mas és mãe dela?" resmungou Inês.

Efectivamente, desde que tinha entrado no carro, Alice esteve praticamente calada, enquanto mandava mensagens incessantemente através do telemóvel.



"Chata?! Achas normal estarmos aqui as três e ela sempre agarrada ao telefone?"



"Estaciona o carro e cala-te! O restaurante é aqui e eu quero beber até cair", disse Alice.





Divórcio











"Quase todos os meus amigos já se divorciaram; alguns, mais do que uma vez.

Uns dizem que é como morrer alguém próximo, há que fazer o luto, pelo menos dois anos.


Tretas. Há quem saia de um divórcio cantando e rindo e quem sofra penas por longos e largos anos. Por vezes quem mais sofre foi quem o quis; e não por arrependimento, mas porque sim.


Porque sem esperar se perde demais, e a esperança, insuflada pela noção de liberdade, só nos incute a ideia de ganhos.


Um divórcio é doloroso; dói de facto como a morte de um ente querido; ou melhor, de uma vida querida que acarinhámos até se transformar num inferno ou num nada, num vazio.


E tem momentos de volta atrás, se decorre de um casamento que, em tempos, até foi feliz. Temos que nos esforçar por nos mantermos nas partes más, se não estamos aqui e estamos no mesmo.


Um divórcio provoca truques na nossa cabeça, que continua casada mesmo depois dos papéis assinados; porque é uma cabeça que, para lá do desinteresse do corpo, continua casada com a vida que tivemos, a única que conhecemos, e não com a pessoa em si. Muitas vezes, o outro é o menos importante e o mais fácil de esquecer.


O luto pode estender-se por anos; num lágrima a despropósito que corre pela cara de um filho, que só nós sabemos porque está lá, numa torneira por arranjar, numa ceia de Natal partida ao meio, numa viagem só para quatro, numa cama king size só para um.


É um processo de libertação e, ao mesmo tempo, de desconfiança. Interrogamo-nos muitas vezes para que serve a liberdade que ganhámos - e que nos sabe tão bem – mas desconfiamos do futuro, e se poderá alguma vez bater o passado, quando ainda era bom.


Um divórcio é um compasso de espera para os optimistas e uma experiência a não repetir, para os pessimistas. O acto de assinar os papéis é absolutamente simbólico; o que todos guardam é quando um deles sai de casa de malas na mão, para não voltar.


Consoante as situações, instala-se o vazio, o alívio ou o desespero. Às vezes, as três coisas juntas.


Toda a casa nos lembra quem partiu, mesmo que tenhamos sido nós a desejar a partida (...quando vem o teu cheiro, dentro de um livro).


A culpabilização é enorme, quando existem filhos, mesmo quando foi o outro a sacanear-nos por todos os meios. Os filhos de um divórcio, nos primeiros tempos, são o fracasso a olhar-nos nos olhos, e esta impressão desvanece-se lentamente.


Eu acredito que quando as pessoas se casam é porque se amam. E que, se se divorciam é porque se deixam de amar, apagando nos filhos o selo de garantia que lhes estampámos quando nasceram: “Aqui está o fruto do nosso amor. Marca registada”.


É importante não esquecer, que para os filhos, até em adultos, o pai era para ter ficado com a mãe e a mãe com o pai. Que tinham obrigação de se ter entendido. Por eles, que não pediram para vir ao mundo. A nossa sorte é que os nossos filhos gostam muito de nós, independentemente dos disparates que façamos, e fingem que se fartam, só para verem em nós uma centelha da felicidade de que se lembram de quando os pais ainda eram casados, mesmo que estejamos com outras pessoas, eternos estranhos para eles."



publicado por Vieira do Mar