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quinta-feira, 27 de outubro de 2011

O Amante é Sempre o Ultimo a Saber




Descobri, um pouco tarde, que afinal todos os meus livros são
histórias de amor. Só que as daninhas estavam tão bem disfarçadas
que eu próprio não tinha reparado.




Tão sensacional descoberta levou-me a cogitar no seguinte:
e qual será a melhor forma de amar? Carente de modelos reais na vida
humana, decidi procurá-los na natureza. Com a ajuda da televisão,
claro, Canal Odisseia, National Geographic, Canal Panda, essas
coisas. Pode-se lá chegar à natureza, nos dias que correm, senão pela
televisão! Três rolos modelos logo me saltaram à vista: o Amor do
Louva-a-deus; o Amor do Cisne; o Amor do Urso Polar.




Após alguma esmiuçação, concluí que qualquer um me parece
bem, e tem as suas vantagens e desvantagens.





No romance do louva-a-deus, a fêmea devora o macho depois da
cópula. É natural, toda a gente sabe que a gravidez estimula o apetite.
E seria bem pior se ela o devorasse antes da consumação.




O cisne acasala para a vida. É bonito. Lembra certos parzinhos
que encontramos sobretudo na noite boémia, muito perfeitos, muito
encapsulados, o mundo é deles, o mundo são eles. Gosto, mas como
nunca experimentei sinto-me sempre um bocadinho do outro lado
da vitrina, a definhar de inveja.




Pronto, confesso. O que, esse sim, me toca profundamente é
o amor do urso polar. É esquivo, dura pouco – pelo menos a parte do
encontro.




Urso polar e ursa polar namoram e acasalam brevemente,
e logo se apartam, cada um para seu lado, para todo o sempre,
a fêmea talvez com uma cria, o macho continuando a sua caminhada,
glaciares fora, de nenhures em direcção a nenhures.




Vai solitário e triste, o nosso urso? Talvez. Eu gosto de pensar que
vai de coração cheio, e que a brevidade do encontro é compensada
pela intensidade da memória. Tanto quanto sei, não há ursos com
Alzheimer.





Rui Zink O amante é sempre o último a Saber

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