
Lá fora a noite dorme silenciosa.
A madrugada aproxima-se devagar. as estrelas observam curiosas, como se estudassem matematicamente a lógica do Universo. De alguma forma, Paulo sente-se seguro com a presença permanente das estrelas...como se elas fossem as únicas responsáveis por manter a ordem e a estabilidade no seu dia a dia. Sim, Paulo não tem dúvida que o destino está escrito nas estrelas.
Abre lentamente a janela do quarto. É um homem jovem, demasiado jovem para carregar aquela angústia no peito.
Paulo não consegue explicar a origem daquele sentimento...como se carregasse o mundo nas próprias costas...como se uma força desconhecida o impedisse de olhar de frente para o lado bom da vida...uma força que o obriga a acomodar-se ás rotinas e à simplicidade do seu dia a dia.
Paulo desconhece a explicação desse estado de espírito. Mas sente-o. Convive intimamente com ele. Há demasiado tempo talvez.
Paulo é um homem novo que se sente velho.
É culto, inteligente, racional. Capaz de ponderar todas as suas decisões e com coragem para seguir sempre o caminho certo. Acha que tem tido sorte na vida.
Não é um homem audaz. Confia pouco nas suas capacidades. Tem pouca vontade de testar os seus limites.
Naquela janela, Paulo pensa no Amor. tende mais uma vez a racionalizar. Essa é a melhor forma de permanecer na sua zona de conforto.
Na cama, Inês, continua a dormir, alheia aos pensamentos do marido.
Ele observa-a por uns instantes, absorto por um misto de carinho e pena. Inês é uma mulher extraordinária que o acompanha desde sempre. é inteligente, companheira, confiável, e de alguma forma Paulo admira-a e respeita-a.
Mas Inês está longe de ser a mulher que Paulo idealiza. Está longe de corresponder aos seus desejos de menino adolescente.
Inconscientemente, Paulo sonha com uma mulher apaixonada, divertida, selvagem, independente...que o desafie, que o confronte, que lhe tire o fôlego...que lhe mostre diariamente que a vida não é só cinzenta.
Há muito tempo que Inês não o deixa suspenso na própria respiração.
Paulo não sabe se essa mulher existe. Se as estrelas que o observam lhe reservam alguma surpresa.
Volta a observar Inês...enche o peito com o ar refrescante da madrugada e sente-se purificado. Fecha a janela.
Paulo deita-se e inesperadamente Inês acorda sobressaltada e sorri-lhe. Envolve-o com os seus braços. Acolhe-o e Paulo sente-se novamente resignado à sua zona de conforto. O seu espírito continua a vaguear, para lugares inóspitos...lugares que só existem nos sonhos de um homem conformado.
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